Brisa Hotel
Caderno do Cariri

Natureza

Chapada do Araripe e Geopark Araripe: entenda a história desse território

Mais do que uma imponente formação geológica no semiárido nordestino, o território do Araripe é um relicário natural de relevância internacional. Aqui se entrelaçam registros de mares e lagos primitivos do período Cretáceo com mais de 110 milhões de anos, depósitos fossilíferos com notável preservação de tecidos moles, florestas de encosta e uma história de ocupação humana profundamente ligada à presença das águas.

Por Equipe Editorial Brisa Hotel
Fotografia documental do relevo tabular e da escarpa da Chapada do Araripe em Santana do Cariri
Escarpa e relevo tabular da Chapada do Araripe, Santana do Cariri — CEFoto: Renê Fernandes / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

O relevo tabular: a Chapada do Araripe e sua função ecológica

A Chapada do Araripe é uma feição geomorfológica tabular — um planalto residual com topo plano que se estende por mais de 160 quilômetros na divisa entre o sul do Ceará, o noroeste de Pernambuco e o leste do Piauí. Suas altitudes médias variam entre cerca de 700 e 1.000 metros acima do nível do mar, criando um microclima ameno e úmido no semiárido.

Geologicamente, a Chapada atua como um reservatório hídrico natural. As camadas superiores de arenito permeável absorvem as chuvas de altitude, e a água infiltra lentamente no subsolo até encontrar camadas argilosas e impermeáveis inferiores. Essa dinâmica hidrogeológica dá origem a centenas de fontes e nascentes perenes ao longo de suas encostas (as chamadas 'fontes do Araripe'), que sustentam matas úmidas e os vales férteis do Cariri.

Fotografia do soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni) no ninho sobre a água nas encostas da Chapada
Soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni), ave endêmica e símbolo da conservação da Chapada do AraripeFoto: Hesperia2007 (Shirley) / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

O mar ancestral e os fósseis do período Cretáceo

A história das rochas do território remonta à Bacia Sedimentar do Araripe, cuja evolução ocorreu principalmente no período Cretáceo Inferior (entre cerca de 125 e 90 milhões de anos atrás), durante a fragmentação do supercontinente Gondwana e o processo de abertura do Oceano Atlântico Sul.

Ambientes lacustres e incursões marinhas calmas propiciaram condições químicas favoráveis de sedimentação que preservaram organismos pré-históricos em diferentes camadas geológicas:

Na Formação Crato, a deposição em calcário laminado (folhelhos e calcários finos) preservou em planos detalhados uma vasta diversidade de insetos (como libélulas, formigas e besouros), plantas com flores pioneiras, penas e peixes. Já na Formação Romualdo (Grupo Santana), a formação de nódulos e concreções carbonáticas resultou em uma conservação tridimensional excepcional (depósito do tipo Konservat-Lagerstätte), onde peixes fósseis mantêm preservados não apenas ossos, mas também tecidos moles, filamentos de brânquias e músculos, ao lado de crocodilomorfos, tartarugas e grandes pterossauros (répteis voadores).

Fóssil do peixe Dastilbe crandalli preservado em placa de calcário laminado da Formação Crato
Fóssil de peixe Dastilbe crandalli em calcário laminado da Formação Crato (Cretáceo Inferior), Bacia do Araripe — CEFoto: R. Henrik Nilsson / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)
Fóssil tridimensional do peixe Rhacolepis buccalis em nódulo carbonático da Formação Romualdo
Fóssil tridimensional de Rhacolepis buccalis (Formação Romualdo, Santana do Cariri — CE), exemplar de preservação tridimensionalFoto: Ghedoghedo / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O Geopark Araripe e a chancela internacional da UNESCO

Com o objetivo de valorizar o patrimônio geológico, promover a educação ambiental e fomentar o geoturismo comunitário sustentável, a Universidade Regional do Cariri (URCA), juntamente com o Governo do Estado do Ceará, estruturou o projeto do Geopark Araripe. Em setembro de 2006, o território foi reconhecido como o primeiro geoparque das Américas a integrar a Rede Global de Geoparques (Global Geoparks Network - GGN).

Com a criação do Programa Internacional de Geociências e Geoparques da UNESCO em 2015, a iniciativa passou a ser denominada oficialmente Geoparque Mundial da UNESCO (Araripe UNESCO Global Geopark). É fundamental esclarecer a natureza dessa designação: a chancela de Geoparque Mundial da UNESCO reconhece territórios de relevância geológica geridos de forma integrada para preservação, ciência e turismo sustentável, sendo uma designação distinta da lista de 'Patrimônio Mundial da Humanidade' (World Heritage). A gestão do Geopark Araripe permanece sob responsabilidade institucional e acadêmica da URCA.

Fachada e acervo do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens da URCA em Santana do Cariri
Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens (URCA), Santana do Cariri — CEFoto: Antônio Albuquerque / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Os 11 geossítios e a conservação do território

Inicialmente composto por 9 geossítios em sua criação em 2006, o Geopark Araripe foi ampliado para 11 geossítios oficiais através de estudos e ações de geoconservação da URCA, cobrindo uma área de cerca de 3.789 km² em 6 municípios cearenses da Bacia do Araripe:

1. Crato: Geossítio Batateiras (localizado no Parque Estadual Sítio Fundão, com nascentes, geomorfologia e engenho secular); 2. Juazeiro do Norte: Geossítio Colina do Horto (relevo residual testemunho e fé popular ao redor da estátua do Padre Cícero); 3. Barbalha: Geossítio Riacho do Meio (fontes de encosta e trilhas em mata úmida), Geossítio Arajara e Geossítio Mirante do Caldas; 4. Missão Velha: Geossítio Cachoeira de Missão Velha (queda d'água de 12 metros em arenito com icnofósseis) e Geossítio Floresta Petrificada do Cariri (troncos fósseis de coníferas com mais de 140 milhões de anos); 5. Nova Olinda: Geossítio Ponte de Pedra (geoforma natural esculpida em arenito da Formação Exu) e Geossítio Pedra Cariri (antiga lavra de calcário fossilífero da Formação Crato); 6. Santana do Cariri: Geossítio Pontal de Santa Cruz (mirante panorâmico na escarpa da Chapada) e Geossítio Parque dos Pterossauros (jazida in situ de fósseis de répteis voadores da Formação Romualdo).

O território conta com a proteção de Unidades de Conservação como a Floresta Nacional do Araripe-Apodi (FLONA Araripe, criada em 1946) e a APA Chapada do Araripe. Essas florestas de encosta e topo protegem as nascentes e o habitat exclusivo do soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni), ave endêmica criticamente ameaçada de extinção.

Geossítio Cachoeira de Missão Velha com queda d'água sobre rochas de arenito da Bacia do Araripe
Geossítio Cachoeira de Missão Velha, Missão Velha — CEFoto: MacioFeitosa / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Como visitar com consciência ambiental e respeito à legislação

A visitação à Chapada e ao Geopark Araripe deve ser guiada pelo compromisso com a proteção ambiental e a integridade do patrimônio. Conforme o Decreto-Lei nº 4.146 de 1942, os depósitos fossilíferos são de propriedade da União e sua exploração ou extração depende de autorização oficial prévia e tem finalidade estritamente científica.

Para o visitante, a recomendação é clara: nunca tente coletar, desenterrar, comprar ou transportar fósseis. Para conhecer esse patrimônio com segurança e profundidade, visite os centros de pesquisa e museus oficiais da região, como o Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens (URCA) em Santana do Cariri, onde os exemplares são exibidos com contextualização científica e pedagógica.

O Brisa Hotel apoia o turismo sustentável no Cariri e se posiciona como um ponto de acolhimento e repouso de qualidade no Crato para viajantes, pesquisadores e famílias que desejam vivenciar a riqueza natural e cultural desse território singular.

Fontes e referências consultadas

  • Araripe UNESCO Global Geopark (Brazil)

    UNESCO — Global Geoparks Network · Consultado em 2026-10-01

    "Primeiro geoparque das Américas a integrar a Rede Global de Geoparques (2006) e designado como Geoparque Mundial da UNESCO pelo Programa IGGP em 2015."

  • Guia Oficial Geopark Araripe — Território e Geossítios

    Universidade Regional do Cariri (URCA) · Consultado em 2026-10-01

    "Relação oficial e mapa dos 11 geossítios distribuídos nos municípios de Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha, Missão Velha, Nova Olinda e Santana do Cariri."

  • Geossítios do Geopark Araripe

    Universidade Regional do Cariri (URCA) · Consultado em 2026-10-01

    "Informações geológicas, paleontológicas e orientações de visitação dos 11 geossítios sob gestão acadêmica da URCA."

  • Decreto-Lei nº 4.146, de 4 de março de 1942 (Proteção aos Depósitos Fossilíferos)

    Presidência da República — Casa Civil · Consultado em 2026-10-01

    "Art. 1º: Os depósitos fossilíferos são elementos da propriedade da União, e a sua exploração depende de autorização prévia com finalidade exclusivamente científica."